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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– (1) Continuação da Ordem

Nos dias de hoje, a Ordem do Templo ainda está mergulhada na mais densa bruma da nossa memória colectiva, como ainda é considerado por muitos um tema sacrílego, pelo que muito convenientemente, para muitos um denso véu ainda encobre a verdade histórica dos Cavaleiros Templários. Por essa razão, cronistas que foram considerados grandes no seu tempo, por temor às prováveis consequências, ou  muito pouco provável, porque consideraram em consciência que o pano caiu para os Cavaleiros Templários, naquela fatídica Sexta-feira do dia 13 de Outubro de 1307, não procuraram pesquisar muito fundo os sinais que lhes davam conta da continuação da Ordem. Preferiram antes acreditar que nesse longínquo dia, por toda a França, os Senescais do rei, dando cumprimento às ordens seladas deste, sem nenhum deles violar o segredo imposto, mesmo para os seus familiares, mobilizaram e organizaram tropas suficientes para colocar grilhetas nos mais destemidos e treinados guerreiros de toda a Cristandade. Nos nossos dias, seria algo semelhante a uma típica esquadra suburbana de polícia, com poucos efectivos, mal armados e deficientemente treinados, receberem ordens dos seus superiores para reunirem forças suficientes para prenderem todo o corpo de Comandos e todo o Corpo de Fuzileiros estacionados na sua comarca. Parece-nos ser inverosímil que tal pudesse ter acontecido se os Cavaleiros Templários não tivessem querido sacrificar algumas ovelhas para deste modo salvarem todo o rebanho. Assim, o bom-senso dita-nos que os Cavaleiros do Templo, muito disciplinados e avançados para o seu tempo, não morreram ou desterraram-se submissamente como nos querem fazer crer os investigadores de visão curta. E tanto mais que em toda a Europa nem todos os Cavaleiros do Templo foram presos em simultâneo. Esse tipo de cataclismo só aconteceu em França, e mesmo aí, há conhecimento de que alguns Cavaleiros Templários foram avisados da campanha maquiavélica que o rei arquitectava contra eles, e fugiram a tempo. Por outro lado, houve territórios em que as perseguições e a supressão dessa destemida Ordem de Cavalaria tiveram uma escala variável, e outras regiões houve ainda em que a perseguição foi pouco relevante ou até mesmo nula. Por exemplo, para confirmar esta tese, temos o caso da Inglaterra, cujo rei Eduardo II, recusou-se a acreditar que os Templários fossem culpados das aberrantes acusações que o Papa lhes fazia, o que é compreensível, dado existir uma grande rivalidade entre a Inglaterra e a França. Pois não nos podemos esquecer que desde 1309, o papado encontrava-se localizado em Avignon, cidade localizada perto da foz do Ródano, que à data era um feudo do reino de Nápoles e da Sicília, mas sob influência política da França.

Outro caso que foi evidente duma perseguição quase nula foi o da Alemanha, aliás, circula uma história bizarra de contornos dramáticos, que o Mestre Templário Hugo de Gumbach, juntamente com um punhado de Cavaleiros experientes e bem treinados em combate, cuidadosamente escolhidos e seleccionados por este, fortemente armados, fizeram uma entrada teatral no concílio convocado pelo arcebispo de Metz, alegando que ele e os seus homens estavam desejosos de serem submetidos a julgamento por combate contra aquela assembleia ali reunida. Após um estupefacto silêncio dos prelados presentes, o caso foi rapidamente abandonado e esquecido por estes e os Cavaleiros Templários viveram para provar a sua inocência noutra ocasião.

Também houve territórios em que não existiu qualquer perseguição, como foi o caso de Aragão e Castela, em que os bispos que presidiram ao julgamento dos Cavaleiros Templários os declararam inocentes. Por outro lado, houve duas nações que de imediato ofereceram refúgio e asilo aos perseguidos Cavaleiros do Templo: foram eles os reinos de Portugal e da Escócia.

Segundo versa a história oficialmente aceite, os Cavaleiros Templários de França foram conduzidos como cordeiros para o matadouro e por esse facto, a sua Ordem foi suprimida em todo o mundo. Mesmo admitindo com muito esforço que em França os acontecimentos narrados pelos cronistas foram os factos que realmente tiveram lugar naquele território, não deixa de ser muito estranho, que os Cavaleiros Templários, cujo seu símbolo era constituído por dois cavaleiros montados em um só cavalo, num inequívoco sinal de companheirismo, fraternidade e pobreza, não tivessem pedido reforços a outros seus irmãos estacionados em outros territórios.

Não menos perplexo e sem resposta nos deixa o facto de haver o conhecimento histórico, que nessa data estava fundeada ao largo das costas Francesas, a famosa e temível armada Templária, a qual, simplesmente se volatilizou num total mistério. Aliás, os registos da espoliação aos bens dos Cavaleiros Templários ordenada pelo rei de França assim o atestam, uma vez que não consta nestes registos um único navio Templário que fosse apresado. Então, para onde navegou essa poderosa e temível armada Templária? Pensa-se que essa armada soltou âncora do porto de Marselha no dia anterior à prisão dos Templários, contornou as Ilhas Baleares, e arribou nas margens do rio Tejo, onde no seu estuário encontrou porto seguro. Consta-se ainda que uma parte desta armada seguiu para a Escócia ode encontrou abrigo. Pelo que tanto os navios, os mestres e os marinheiros daquela poderosa armada encontraram asilo tanto no solo Português, como vieram encontrar abrigo em terras Escocesas.

Assim, graças à astúcia de D. Dinis, após a extinção da Ordem do Templo, este monarca soube convencer o então Papa João XXII a dar-lhe aval através da bula Ad ea exquibus de 14 de Março de 1319 a criar uma nova Ordem de Cavalaria, a Ordem de Cristo, que num bom rigor histórico, podemos considerar que foi a continuadora da Ordem do Templo, dado que todos os Cavaleiros e bens da primitiva Ordem foram transferidos para a recém-criada Ordem de Cristo, que veio a ter a sua sede no castelo de Castro Marim, no Algarve, para em 1357 ser transferida para o Castelo de Tomar, regressando desse modo ao ponto de partida. Na verdade, com a transferência dos bens para a Ordem de Cristo, os Cavaleiros Templários vêem assim garantida a continuação da sua actividade em Portugal. Em bom rigor, nada diferenciava a nova Ordem de Cristo da antiga Ordem do Templo. Nem mesmo o seu nome: “Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ordo Militiae Jesu Christo), que equivale ao nome original da Ordem do Templo: “Comilitionum Christi, isto é, Cavaleiros de Cristo, conforme reza o prólogo à Regra Templária, redigido no Concílio de Troyes. O hábito permaneceu o mesmo, e até a própria insígnia, a Cruz Pátea arredondada, recebe apenas um ligeira alteração, com a inclusão no seu interior de uma cruz grega, de cor branca, portal para o Quinto Império; mais tarde, os seus extremos serão modificados, transformando-se na conhecida Cruz de Cristo, que assume, simbolicamente, com D. Manuel, Governador da Ordem, um valor idêntico ao da insígnia real (o escudo de Portugal). Foi a Ordem de Cristo que deu continuidade ao espírito de cavalaria e de cruzada, que veio a originar mais tarde que Portugal tivesse a sua grande gesta marítima, ao tomar a dianteira na expansão marítima dos séculos XVI-XVII em relação às demais potências europeias, como lhe conferiu a germinação de uma lenta formação de uma identidade nacional.

Por sua vez, os Cavaleiros Templários que desembarcaram na Escócia encontraram neste território um bom porto de abrigo, uma vez que este território não se encontrava sob o domínio Papal, dado que Robert Bruce fora excomungado pelo Papa, pelo que este não tinha qualquer autoridade e jurisdição sobre aquele território. Assim, os Cavaleiros Templários fugitivos gozaram de plena liberdade. A história ainda regista que os Cavaleiros Templários uma vez na Escócia, ajudaram Robert Bruce na famosa batalha de Bannockburn, ajudando-o a libertar a Escócia da Inglaterra.

Com o restabelecimento da Igreja na Escócia, os Cavaleiros Templários passaram para a clandestinidade. Uns vieram a colonizar o Novo Mundo criando os alicerces de grandes nações como é o caso dos EUA. Há provas que nos atestam que os Cavaleiros Templários se manteriam coesos secretamente na Escócia por quase quatro séculos.

A possibilidade da sobrevivência da Ordem após a sua suspensão canónica, em 1308, a avaliar pela profusão de sociedades, umas discretas, outras secretas, que se reivindicam como legitimas herdeiras do Templo, não é de desprezar. Aliás, Fernando Pessoa, grande vulto da Cultura Portuguesa e “iniciado na aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal”, segundo os seus próprios escritos, testemunha a continuidade da Ordem do Templo.

Em suma, historicamente, há poucas provas de que os Cavaleiros Templários fossem efectivamente exterminados e com eles a sua Ordem. Pelos graves acontecimentos de que foram acusados, é evidente que eles tiveram a necessidade de se ocultarem para lhes ser possível reagruparem-se de novo.

OP

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