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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– (2) Os conflitos com a igreja e a política geo-estratégica de Portugal e Castela

A hospitalidade que foi oferecida nas terras Lusas aos perseguidos Cavaleiros Templários foi provavelmente a responsável pelo nome de Portugal ainda hoje ser pronunciado por todos os povos do mundo com grande respeito. Todavia, para dissecarmos as raízes de tal apreço, é conveniente conhecermos os motivos que conduziram Portugal a conhecer novos mundos e novas culturas, e para isso devemos cuidadosamente dissecar o caminho político que o nosso rei D. Dinis percorreu no período de 1307-1319, intervalo de tempo que corresponde à prisão dos Templários em França e à criação da Ordem de Cristo em Portugal, uma vez que os mais acérrimos defensores das ciências económicas e que geralmente são pouco crédulos aos milagres, ou a qualquer fenómeno que não seja explicável pela ciência, se interrogam: como foi possível no século XV a uma pequena nação tamanha gesta? Se até aos meados desse século era ainda um reino relativamente pobre e de parcos recursos… Porque não a Itália, a Alemanha ou até mesmo a Flandres a tomar a dianteira na exploração marítima? O que seria mais plausível, pois nessa época a riqueza e o conhecimento estavam concentrados nesses poderosos, ricos e desenvolvidos territórios. Então, onde conseguiu Portugal obter o capital inicial para financiar tamanha aventura? Tudo nos leva a suspeitar que esse indispensável capital, ou pelo menos uma grande percentagem dele, veio dos cofres da rica Ordem de Cristo, ou seja, veio da antiga Ordem dos Templários.

Mas, para já vamos focar toda a nossa atenção no referido período histórico, uma vez que este período é o detentor da chave que nos permitirá desvendar o mistério da proveniência do financiamento para tão grande gesta, que foi cantada pelo nosso grande poeta Luís Vaz de Camões e tem sido o orgulho de todas as gerações de portugueses. Ora vejamos: em 1306, pressionado pelo rei Filipe de França, o Belo, o Papa Clemente V ordenou que se reunisse em Espanha um Concílio para investigar o comportamento dos Templários na Península Ibérica. A assembleia dos prelados católicos convocada pelo Papa ocorreu em Salamanca. Nessa assembleia, após acalorada discussão, os presentes chegaram à conclusão que nada foi constatado que comprometesse os Cavaleiros do Templo. Por sua vez, após a prisão dos Templários em França, Clemente V, em Dezembro de 1308, através da bula Callidis serpentis, ordenou ao nosso rei D. Dinis que fizesse o mesmo com os Templários portugueses, o qual com a diplomacia que o caracterizava não atendeu ao pedido do Sumo Pontífice, o que a bem da verdade já vinha sendo quase uma tradição, pois Portugal era detentor de um impressionante curriculum de problemas e atritos com a Igreja católica, nomeadamente: quando em 1192, o cardeal Rinério lançou a sentença de excomunhão sobre Portugal e Leão; ou quando em 1208, Sancho I foi excomungado e nessa condição veio a morrer em 1210; ou mesmo em 1220, quando D. Afonso II foi excomungado pelo arcebispo de Braga, e que lhe valeu para além desta sentença ter sido confirmada pelo Papa Honório III, ainda o ameaçou de expor o reino de Portugal à conquista por outros soberanos, e absolveu os seus vassalos do juramento de fidelidade, ou até mesmo quando em 1231, Portugal sofreu novo interdito papal, levantado somente em 1233 pelo Papa Gregório IX. Ora bem, todos estes sucessivos conflitos entre os monarcas portugueses e a igreja católica vieram em 1245 a convergir na deposição de D. Sancho II, e ao lavrar duma terrível guerra civil, que varreu com as maiores calamidades todo o território Luso, empobrecendo-o ainda muito mais.

Por outro lado, nesse tempo a Península Ibérica já espelhava a grande rivalidade existente entre a França e a Inglaterra, a qual viria mais tarde a desencadear a Guerra dos Cem Anos. Castela era pró-França e Portugal era pró-Inglaterra, aliás a aliança mais antiga da Europa. Para agravar ainda mais o tabuleiro político e geoestratégico de Portugal, a Ordem do Templo possuía um imenso território nas terras Lusas, que de acordo com o que fora decretado pela referida bula papal, seria entregue ao papado, em Avignon, portanto, sob influência directa de Filipe de França, o Belo. Assim, nesse intrincado e difícil jogo político internacional, os bens dos Templários poderiam criar um cisma geopolítico no reino português. Para além disso, determinava-se a união das duas ordens hierosolimitanas, Templários e Hospitalários, o que significaria a união dos bens lusitanos do Hospital com os bens do Templo, o que simplesmente se traduziria num “estado dentro do estado”, já que rivalizaria com o rei em termos de posses senhoriais. Por estas razões geopolíticas, o nosso rei D. Dinis foi corajoso e inabalável na sua estratégia política.

Assim, em consequência da diplomacia desenvolvida pelo nosso rei D. Dinis, o Papa Clemente V, em 1310, voltou a decretar que se realizasse um novo Concílio, a fim deste investigar a conduta dos Templários ibéricos. Para esse fim, reuniram-se duas assembleias: uma em Medina del Campo, onde foram citados os Templários de Castela e Leão e outra novamente em Salamanca, onde foram citados os Templários portugueses. Os arguidos Cavaleiros do Templo foram mais uma vez por estes prelados considerados inocentes, embora estes se abstivessem de proferir a sentença que a remeteram para o Papa. Entretanto o rei D. Dinis impregnado de grande determinação política, firmou de imediato um pacto com o seu genro, Fernando IV de Castela, a fim destes dois monarcas se precaverem contra qualquer medida papal que viesse a pôr em causa os interesses económicos e geopolíticos destes dois reinos. Nesse inteligente pacto, os monarcas comprometeram-se a defender as posses dos Templários nos seus respectivos territórios, se viesse a haver intervenção militar por ordem do Papa. A firme postura dos reis de Portugal e de Castela levou inevitavelmente a que o Papa Clemente V viesse a ceder. Pelo que em Maio de 1312 este incluiu a seguinte cláusula em sua bula Ad providam: todos os bens da Ordem do Templo seriam transferidos para a Ordem do Hospital, excepto os bens situados nos reinos de Castela, Aragão, Maiorca e Portugal, embora estivesse contida nesta bula uma condição que impedia os reis da Península Ibérica de alienarem as propriedades dos Templários, até que a Igreja tomasse uma decisão definitiva sobre estes bens. Mais tarde veio a verificar-se que esta resoluta postura régia foi decisiva para que a história da Península Ibérica tivesse uma outra redacção, uma vez que mais tarde os procuradores portugueses alegaram ao novo Papa, João XXII que a transferência dos bens dos Templários para a Ordem do Hospital acarretaria danos irreparáveis à coroa portuguesa. Embora os Hospitalários nesse tempo, até estivessem em afinidade com a coroa portuguesa, mas o facto da Ordem do Hospital portuguesa estar subordinada ao grão-comendador da Hispânia, que residia em Castela, poderia no futuro causar problemas quanto à gerência dos bens em terras portuguesas, para além de proporcionar ao rei de Castela algum tipo de pretensão territorial em tempo de guerra. E tanto mais, que a relativa autonomia dos Hospitalários portugueses em relação ao comendador da Hispânia não seria suficiente para resolver alguma questão hierárquica de maior importância, pois como foi referido o grão-comendador da ordem residia em Castela, eterna rival de Portugal. Por esta razão, só interessava ao rei D. Dinis, que o rico património dos Templários não saísse para fora das fronteiras do nosso território.

Na verdade, a preocupação do nosso rei D. Dinis com a demarcação territorial do reino de Portugal não era infundada, ou injustificada, uma vez que os freires portugueses da Ordem de Santiago, ou de Calatrava, que desde 1288 deixaram de estar sujeitos ao mestre de Castela, por decisão do Papa Nicolau IV, voltaram no tempo de D. Dinis a sê-lo, por decreto do Papa Bonifácio VIII. Esta subordinação da Ordem de Santiago portuguesa ao mestre de Castela só veio a ser resolvida oficialmente em Fevereiro de 1319, pelas bulas Olim felicis e Tunc digne, ambas do Papa João XXII, a qual libertou uma situação que poderia ter sido desastrosa à coroa portuguesa, pois os cavaleiros de Santiago receberam dos nossos reis muitos castelos limítrofes com o reino de Castela em paga pelas suas brilhantes campanhas militares. Se adicionarmos a esta causa, o problema templário e a questão da subordinação dos Hospitalários portugueses ao mestre de Castela, então, criar-se-ia na certa um problema para a soberania portuguesa, uma vez que tanto a Ordem de Santiago como a Ordem do Hospital possuíam um vasto território no reino de Portugal.

Mas voltemos ao caso da Ordem do Templo, com a finalidade de ultrapassar as referidas preocupações, os procuradores portugueses apresentaram ao Papa João XXII a seguinte proposta: em Castro Marim, Castelo do reino do Algarve, na fronteira com os territórios muçulmanos, seria fundada uma nova ordem monástico-militar portuguesa de cavalaria e para tal o rei D. Dinis doaria a essa Ordem de Cavalaria o seu Castelo. Em Março de 1319, o Papa João XXII através da bula Ad ea ex quibus concordou com a criação da referida nova Ordem, à qual acedeu ainda ser o seu patrono, e cujo nome oficial atribuiu-lhe o de Ordem dos Cavaleiros do senhor Jesus Cristo. Assim, esta Ordem veio a estabelecer-se no dito Castelo de Castro Marim. A Ordem de Cristo seguiu a regra Cistercense, a mesma dos Templários. Para além do referido Castelo, foram ainda lhes dado todas as propriedades e bens pertencentes aos Templários.

Em suma, em Portugal os Cavaleiros Templários apenas trocaram de nome e mudaram um pouco a sua figura, passando a se denominar Cavaleiros da Ordem de Cristo, uma vez que os novos Cavaleiros desta nova Ordem herdaram tanto os bens dos Templários, como a maior parte dos ex-freires do Templo e os seus modos de viver. Foi aliás, graças a este seu modo iniciático de viver, que veio a permitir manter em sigilo todos os segredos da navegação Templária, da qual pouco mais de um século depois Portugal tanto veio a beneficiar.

Pouco tempo depois, aproximadamente em 1338, a Ordem transferiu-se para Tomar onde veio a ter o seu Quartel-general. O seu primeiro Grão-Mestre foi Gil Marques, mestre da casa de Avis, outra Ordem religiosa-militar de grande força política em Portugal. Os futuros mestres seriam eleitos pelos freires professos, e a supervisão da Ordem ficou sob a responsabilidade do abade de Alcobaça. Esta Ordem veio a destacar-se na história de Portugal, sendo o facto mais relevante as explorações marítimas.

OP

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