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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– (3) O Legado Templário nas Terras Lusíadas (I Parte)

 

Em 1321, a Ordem de Cristo tinha em Portugal um efectivo relativamente pequeno: consta-se que tinha apenas 69 cavaleiros armados e montados, 9 clérigos e 6 sargentos, num total de 84 freires. Embora o número de efectivos desta Ordem, herdeira do património e dos valores da Ordem do Templo, fosse relativamente reduzido, caracterizava-se no entanto como sendo um corpo militar de elite, permanentemente pronto para entrar em combate com o objectivo de defender os interesses de Portugal. Por consequência da sua prontidão, da sua eficácia militar e da sua lealdade aos interesses de Portugal, a Ordem de Cristo veio a ter uma grande importância, tanto para a estratégica de defesa do reino, bem como em todo o processo de reconquista. E tanto mais que naquele período medieval era costume nos reinos europeus recrutarem homens para o exército somente quando as necessidades de natureza militar imperativamente o exigissem. Por esta razão, tanto a Ordem Militar de Cristo, como as demais Ordens militares do reino, foram todas elas de vital importância para a consolidação da nacionalidade e para o fortalecimento das fronteiras do reino de Portugal.

 

Assim, pelo facto das Ordens Militares terem atendido à necessidade que o reino de Portugal tinha de possuir um exército forte, capaz e em permanente estado de alerta, as Ordens Militares vieram a ter uma grande importância para a história de Portugal que hoje se conta. Com efeito, no Mundo foram raros os dramas humanos que tivessem tido uma dimensão comparável àqueles que foram gerados pela gesta portuguesa, os quais pelo seu gigantismo e grande sofrimento, não deixaram de suscitar paixões díspares, contraditórias e persistentes no tempo. Por conseguinte, a importância que tiveram as Ordens Militares para a defesa do reino de Portugal, apesar das graves condenações eclesiásticas que pendiam sobre os Templários, o rei D. Dinis (1261-1325) decidiu que a Ordem do Templo deveria permanecer em terras portuguesas. Nem o processo papal sobre os Templários, nem tão pouco a execução do seu Grão-Mestre Jacques de Molay, em 1314, o intimidaram, antes pelo contrário, em 1317 reiterou que os Templários não tinham cometido crimes em Portugal, e por consequência desta sua determinação, Portugal passou a ser o refúgio para os perseguidos de toda a Europa. Pelo que de vários países chegaram fugitivos às suas fronteiras, trazendo consigo o conhecimento e tudo o mais que podiam. Dois anos depois, em 1319 um novo Papa foi eleito, o Papa João XXII, que acabou por reconhecer a Ordem de Cristo, dando com esse reconhecimento início a uma nova era e a uma nova missão para os cavaleiros do Templo.

 

Na verdade com a chegada ao reino de parte da maior e mais poderosa esquadra de guerra do seu tempo, juntamente com as maiores inteligências pensantes da Europa, e ainda por cima, acompanhadas dum tesouro imensurável de conhecimento, fez com que este reino passasse a ter uma palavra importante na política geo-estratégica do seu tempo. Facto extraordinário, se tivermos em consideração que todo o território Ibérico tinha cerca de dois milhões de habitantes, e que depois da invasão e da ocupação muçulmana, não era considerado pelos restantes reinos cristãos da Europa como fazendo parte desta, uma vez que era considerado por eles como sendo apenas um território dividido em esboços de Estados cristãos, sem força militar para se imporem, e por consequência da sua fragilidade bélica, foram por eles relegados ao esquecimento. Para aqueles reinos da Europa, os estados Ibéricos não passavam de um tampão, ou duma espécie de cordão de isolamento que servia somente para suster a ameaça da invasão árabe.

 

Por outro lado, se tivermos em consideração as sementes que deram origem à própria nacionalidade portuguesa, podemos delas extrair que toda a estratégia Templária já há muito tempo que se traçava. Ora vejamos: foi no movimento de reconquista que surgem na Península Ibérica os cavaleiros vindos da Borgonha para colaborar nas cruzadas destinadas a expulsar os mouros das terras Ibéricas. Um desses cavaleiros foi D. Henrique, que viria a ser o futuro conde portucalense. Ou seja, foi através da forte relação com a casa de Borgonha que Portugal começa a delinear as suas fronteiras e a formar o berço da sua identidade como nação. Aliás, a mesma casa de Borgonha que no início de 1100, viu partir um seu cavaleiro, Hugo de Paynes, juntamente com mais oito cavaleiros, todos eles abrasados pelo fervor religioso e movidos pelo espírito de aventura, o que os levou a procurar nas Cruzadas a glória e a imortalidade da sua alma. Acção tão comum aos valores dos cavaleiros daquele tempo medieval que imbuídos no fervor religioso e nas lendas celtas, partiam rumo à Palestina com a cruz de Cristo no peito e na alma um sonho de Amor. Naquelas terras de Além-Mar, estes nove cavaleiros vieram a destacar-se dos demais somente porque se auto-proclamaram protectores da Fé e defensores dos desprotegidos peregrinos. Por consequência desta sua auto-proclamação, a 12 de Junho de 1118 criaram a Ordem do Templo, também chamada a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a fim de estabelecerem naquelas terras uma milícia de Cristo que disputasse a golpes de espada as relíquias sagradas que os amantes do Crescente profanavam. Aliás, esta foi uma missão que ainda está encoberta por densas trevas, dado que nos primeiros nove anos da existência desta milícia, apenas se supõe que se dedicou a trabalhos relacionados com o plano metafísico, num espaço geográfico muito cobiçado por três grandes religiões monoteístas. Depois deste breve intróito e seguindo o fio das origens de Portugal, mais forte se alicerça a possibilidade deste País ter sido desenhado por uma estratégia Templária. Pois, se tivermos em conta que Portugal não surge de reivindicações territoriais, ou éticas, como em muitos outros reinos de então, mas sim de um objectivo traçado por uma elite política, controlada e dominada pela Igreja. Só muito mais tarde, talvez com a batalha de Aljubarrota é que surge no coração dos habitantes desta região o sentimento de «ser português», uma vez que até esse marco histórico tínhamos apenas um povo formado pela fusão de muitos povos, com muitas tradições e muitas crenças, que pouco percebendo de política, não se importava de ser submetido aos regentes vizinhos, ou seja ao reino de Castela. Mas, uma hipótese para o surgimento do reino de Portugal ainda mais afoita tem a ver com a evolução do próprio Cristianismo, pois é do nosso conhecimento geral que a partir do século V, houve um movimento que pretendeu apagar o passado religioso da humanidade, pretensão essa que veio a acentuar-se com a proximidade do ano mil, devido essencialmente às teses Bíblicas da aproximação do fim do mundo. Por conseguinte, a Igreja Cristã imbuída de mensagens apocalípticas, reivindicou e alimentou ao máximo aquelas mensagens de forma a aumentar o seu poder terreno. E tanto mais que a autoridade reconhecida de Cluny e mais tarde a autoridade Circense, estavam por detrás destas mensagens apocalípticas, como estavam por detrás do ressurgimento do impulso religioso, quase fanático e doentio, com o único fim de implantarem a sua estratégia duma “Nova Ordem Mundial” e para isso valeram-se de algumas das Escrituras cuja interpretação caía fora de qualquer capacidade crítica do povo, e que eram tomadas como anúncio divino irrevogável e de pecado mortal a quem as questionasse, ou duvidasse da sua veracidade. Para que esta estratégia fosse eficaz, chegaram mesmo a converter os seus mosteiros nos principais acumuladores de relíquias, para que através desta macabra oferta transcendente pudessem atrair ainda mais fiéis, e deste modo melhor pudessem espalhar as suas verdades evangélicas e a sua ambição de domínio do poder terreno. Mas, se juntarmos todos os factos históricos conhecidos, verificamos ainda que aquela implantação universal, tanto da Ordem de Cluny, como da Ordem Cistercense, não era senão parte de uma estratégia política muito mais ampla e muito mais ambiciosa do que à primeira vista nos possa parecer. A Ordem religiosa de Cluny e mais tarde a Ordem religiosa Cistercense, pretenderam nada mais, nada menos, do que o poder absoluto para a Igreja sobre a cristandade e uma vez alcançado este poder empreenderiam de imediato a conquista do mundo em grande escala. As cruzadas não foram mais que a realização dessa intenção. Pois pretendiam que depois de alcançarem a vitória criariam então um governo universal, dominado pela Igreja e regido pela classe monástica. Assim para alcançar este propósito tiveram também como etapa, o controlo do povo e a eleição do rei do mundo. E para que o seu controlo fosse uma realidade absoluta e inquestionável, os territórios Ibéricos e não só, passaram a ser o seu laboratório de ensaios onde se insuflava ao máximo a devoção do povo e os seus medos metafísicos do além. Depois do domínio do povo a Igreja saberia influenciar nos governantes europeus uma autonomização, que logicamente teria de reforçar a influenciada política monástica, a qual faria os entendimentos que considerassem necessários para a consolidação do seu poder com os soberanos de países divididos. Neste sentido, a história das terras Ibéricas daquela época é rica em exemplos. Pois, todos nós sabemos que houve a criação e divisão de diversos reinos Ibéricos, nomeadamente a independência de Portugal e a separação entre Castela e León, as quais curiosamente são coincidentes com a implantação do Beneditismo Cluniacense na península Ibérica. Por sua vez, a impossível comprovação documental desta estratégia, facilmente poderá ser substituída pela evidência do enorme poder que esta Ordem passou a ter em todos estes mini estados.

 

Assim, depois de recordarmos as razões que levaram ao nascimento de Portugal, estamos aptos a compreender que antes da migração em massa das maiores inteligências da época para o reino de Portugal, nomeadamente até ao início do século XV, este território era um Estado pobre e culturalmente atrasado, quando comparado com a Itália, com a Alemanha, ou com a Flandres, territórios onde já se esboçavam os traços que dariam lugar ao movimento do Renascimento. Podemos concluir que sem a estratégia Templária, Portugal não teria qualquer possibilidade de financiar em recursos de toda a espécie uma aventura da dimensão da expansão marítima portuguesa. Aquela aventura épica só fora possível realizar, graças à Ordem de Cristo continuadora da Ordem do Templo.

Nas primeiras décadas de existência da Ordem de Cristo, os ex-Templários deram uma grande dinâmica à economia do reino de Portugal. Pois foi por essa altura que se desenvolveu a agricultura, implantaram-se novas indústrias e incentivaram-se ações comerciais de grande amplitude, acima de tudo, com a construção de estaleiros, nomeadamente em Lisboa, que proporcionaram estabelecer também contratos de manutenção de navios e de aprovisionamento destes, aproveitando deste modo todo o conhecimento que tinham adquirido ao longo das cruzadas, nomeadamente no transporte marítimo de peregrinos entre a Europa e o Médio Oriente.

A partir do século XV, a Ordem de Cristo veio a conhecer um grande desenvolvimento, para o qual teve uma grande importância o facto desta Ordem estar sob a influência da esfera política da coroa portuguesa. Aliás, é do conhecimento histórico que o infante D. Henrique, terceiro filho de D. João I, foi em 1416, Governador daquela ditosa Ordem. Como também é do conhecimento histórico, que sob o seu estandarte os portugueses combateram os mouros no norte de África, nomeadamente em Ceuta, e que aquele infante, imbuído do espírito de cruzada, incentivou e contribuiu com a sua dinâmica para a expansão marítima portuguesa. No entanto, verificamos que a escolha desta figura para a gesta portuguesa, está sub-repticiaamente impregnada do poder monástico, uma vez que a estratégia destas Ordens, para além das já mencionadas no nascimento da nossa nacionalidade, passava também por não envolver na Cruzada os monarcas, dado que aqueles reclamariam de imediato para si a glória e os benefícios de tal empreendimento, em detrimento das aspirações da Igreja. Por isso, para tais empreendimentos tinham como estratégia escolher sempre os membros das grandes famílias, de segundo plano. Pois, estes seriam mais facilmente manobrados, e poderiam ser convertidos em paladinos tocados pela aura do sobrenatural de forma a transmitir o seu poder à Igreja. Por isso temos como impulsionador da gesta Portuguesa o Infante D. Henrique. Como comandante cruzado, Godofredo de Bouillon e até como fundador da Ordem Templária Hugo de Payns.

Mas, mesmo estando a Igreja por detrás de toda a expansão marítima portuguesa, em nada tira o mérito aos seus empreendedores. E tanto mais que só tinham passado apenas cem anos desde que os Templários foram condenados nos processos de Paris, quando pela pressão económica da Europa, que entretanto se desenvolvera e crescera de modo apreciável, o Infante conseguiu do Papa um aval para o projecto expansionista que lhe fora induzido. Daí em diante, cada avanço para o Sul e para o Oeste, seria seguido da negociação de novos direitos. Em apenas um século, os Papas emitiram onze bulas, que privilegiavam a Ordem de Cristo com monopólios de navegação na África, posse de terras, isenção de impostos eclesiásticos e autonomia para organizar a acção da Igreja nos locais descobertos.

Assim, podemos concluir que a iniciativa da expansão marítima portuguesa foi da Ordem de Cristo, uma vez que foram estes cavaleiros que deram início à expansão marítima no século XIV com empreendimentos de exploração e conquista, sem a participação visível do Estado português. Todavia, por decisão da Igreja a sua acção era autónoma. Limitavam-se apenas a anunciar a colonização de novas terras à coroa, e eventualmente doavam à família real o domínio material dos territórios recém-adquiridos, mantendo para si o controle espiritual dos mesmos. Todavia não havia conflitos de interesse entre a Ordem e a coroa, dado que a corte, somente estava interessada na obtenção de riquezas e no desenvolvimento do comércio, não se importando por isso de somente lhe caber a responsabilidade de consolidar a posse do que havia sido descoberto.

OP

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