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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– O Ventre da Deusa

 

 

 

 

Poucos são os visitantes duma Catedral gótica, que com um olhar critico e observador, olharam para os portais góticos desses majestosos monumentos da cristandade. Contudo, pelas velhas portas de carvalho já carcomidas pelo tempo, incontáveis gerações de cristãos atravessaram-nas, certamente, imbuídos da mais pura fé. Provavelmente, muitos deles até pararam para apreciar com algum deleite os seus belos frisos de pedra talhada. Todavia, poucos foram aqueles, que conseguiram descodificar o segredo da sua forma ogival. Que sendo arcos de edificações Templárias, na certa, contêm uma mensagem mística e oculta que se destina aos seus Iniciados.

A história diz-nos que os Templários foram grandes devotos do feminino. A literatura de ficção fala-nos de ritos carnais e obscenos entre os dois sexos. Contudo, tanto a história como a literatura dizem-nos que a devoção que os Templários nutriam pela mãe de Jesus Cristo, Maria, era muito profunda, o que não nos surpreende, uma vez que encontramos nesta devoção, muitas semelhanças com a devoção prestada a Maria pela Ordem de Cister, sobretudo, pela figura do abade S. Bernardo, que foi o grande inspirador da Ordem do Templo, e também o grande divulgador do culto Mariano. Assim, através desta conotação podemos deduzir, que a Ordem do Templo nutria também uma grande simpatia pelo culto Mariano e, por sua vez, ao culto da Grande Deusa. Sendo esta a razão, porque aqueles grandes Senhores de manto branco representaram nos pórticos das Catedrais góticas, a parte mais intima da Deusa, a sua vulva.

Na verdade, o culto da Virgem é um dos arquétipos mais fortes de toda a história da humanidade. Desde os mais remotos tempos, que existe uma relação prototípica entre a Virgem e a Lua. Essa Virgem-Lua, que no contexto teológico cristão, dá pelo nome de Maria, e no contexto gnóstico, dá pelo nome de Maria Madalena. Mas, que tanto num contexto, como no outro, é aquela que reflecte e difunde na Terra a luz mística do Cristo-Sol.

Por outro lado, as “Deusas” e as “Virgens” mediante um processo de sincretismo, todas elas descendem da Grande Mãe. E, as inscrições contendo explicitamente o nome de Isis, numa estátua da “Virgem”, que fora descoberta na Catedral de São Estevam, em Metz, eliminam qualquer dúvida sobre a correspondência entre Maria e a Grande Mãe. Aliás, a própria Catedral de Chartres, uma das Catedrais góticas mais conhecidas no mundo cristão, tal como muitas outras Catedrais cristãs dedicadas à Virgem Maria, ou à outra Maria, foram erigidas num local de peregrinação consagrado à Grande Deusa, antes do cristianismo. Pelo que em Chartres, continua a ser homenageada a Virgem e Mãe, só que, em vez de se chamar Ísis, Ceres, Tara, Deméter ou Ártemis, tem o nome de Maria, ou seja, a Grande Deusa assume uma miríade de nomes. E, para reforçar esta metamorfose, Maria tal como as anteriores grandes Deusas, manifesta também uma ligação arquetípica com a água, o precioso líquido da vida e do baptismo. Aliás, todos os cultos relacionados com a Grande Mãe, invariavelmente, estão relacionados com os poderes regeneradores da água. Para além destes arquétipos e lendas atribuídas às “Deusas”, estas ainda estão associados ao arquétipo feminino da fecundação, o qual desde os tempos pré-históricos está muito associado à fecundidade da terra. Daí as “Virgens” ou as “Deusas” serem geralmente representadas com uma criança ao colo e, muitas delas apresentarem a cor da terra.

 

 

Em termos Alquímicos, as “Virgens Negras” simbolizam a matéria no seu estado primordial, uma vez que nessa velha ciência, a cor preta é considerada a primeira fase da Grande Obra, por corresponder ao estado de fermentação, de putrefacção e de ocultamento. Enquanto que a cor branca, pelo contrário, corresponde à iluminação e à elevação espiritual. Pelo que as estátuas da Virgem Maria eram tidas pelos Templários como simples objecto de devoção, enquanto que para estes Iniciados, as imagens de Maria Madalena representavam o princípio cósmico da criação e da regeneração da vida.

Todavia, o culto prestado à Grande Deusa em muitas Catedrais góticas, não se deve essencialmente à influência Templária, como foi o caso da Catedral de Chartes, acima mencionado, deve-se também ao facto de nas localidades onde foram construidas as Catedrais já se praticar há muito o culto à Grande Deusa, ou em outros casos por terem sido edificadas sobre antigos lugares de culto a deusas pagãs. Uma atitude que fora corroborada pelo próprio Papa Gregório, que exortou o clero de então a permitir que os aldeões das províncias pagãs recentemente convertidas, pudessem continuar a celebrar as suas antigas festas e erguer imagens em antigos locais de peregrinação onde foram erguidas igrejas cristãs. Aliás, esta foi uma prática constante da Igreja para a cooptação dos povos recém convertidos à fé cristã.

Na verdade, a Catedral gótica, que secretamente se tornou a casa da Grande Deusa, foi edificada de forma a se assemelhar ao ventre desta, por forma a atrair e prender o crente no seu interior, como a chama bruxuleante atrai e hipnotiza o insecto noctívago, pois a luz espectral e policroma dos altos vitrais que irradia para o seu interior, convida-o ao silencio e à oração, predispondo-o à meditação. Portanto, o ventre da Grande Deusa, é o refúgio hospitaleiro de todos os infortúnios. É o asilo inviolável dos perseguidos, e o sepulcro dos nobres e ilustres. É o centro da actividade pública e a apoteose do pensamento do conhecimento e da arte. É a cidade dentro da própria cidade. O seu aspecto abobadado de ventre fecundo, tal como as grutas e as cavernas, simboliza a vida que se dá ao crente em forma de renascimento espiritual. E, com base nesta simbologia, justifica-se qual foi a razão porque os portais das Catedrais góticas foram construídos de forma afunilada, e porque ostentam uma rosácea por cima destes, à semelhança de um clítoris, o único órgão do corpo humano concebido somente para dar prazer, o que torna a rosácea num ornamento pouco católico.

Na verdade, o feminino está sempre latente nestas grandiosas construções sagradas. A grande Rosácea, que espelha e projecta o pôr-do-sol para o interior do Templo, para além de lhe conferir uma luminosidade rubra, que é a cor da perfeição, está sempre rasgada nas fachadas das Catedrais a Ocidente, a direcção tradicionalmente consagrada às divindades femininas. Mas, se dúvidas houvesse ainda quanto ao arquetípico feminino que está associado às Rosáceas, depressa se desvaneceria, uma vez que compõe a grande rosácea aquilo a que se chama de “teia de aranha”, que é uma referência inequívoca à Grande Deusa, na sua plena manifestação de fiandeira e de senhora do destino do homem, o que a transforma em mais um estranho símbolo para um Templo cristão. E, tanto mais quando os mistérios do feminino assentam exclusivamente num conceito carnal, místico e religioso, onde a sua energia e poder provém da sexualidade e a sabedoria do conhecimento da rosa. Rosa que foi também usada pelos trovadores e pelos alquimistas, como anagrama de Eros, ou do amor sexual. Aliás, existe uma lenda atribuída aos Templários que nos diz que “quem ousar erguer o véu de Ísis e interpretar com sabedoria e inteligência os seus segredos e mistérios, obterá o baptismo da Sabedoria e será superior em Glória, Poder e Força”. Aliás, os iniciados nos mistérios de Isis reconhecem nesta lenda, a fórmula esotérica muito usada pelos alquimistas espirituais: “A primeira matéria recolhe-se no sexo de Ísis”.

Assim, pela magia da vulva, o visitante é atraído ao interior da Catedral gótica, com o respeito que é devido à Grande Deusa. Num profundo silêncio e com disposição à interiorização, de conformidade com o espaço que pisa. Junto a uma pia de água benta, quase sempre representada por uma gigantesca concha octogonal, símbolo da natividade da Deusa, com as pontas dos dedos embebidas nesse precioso líquido da vida, dá inicio ao ritual da água, e com este se purifica, para poder receber a Luz sagrada.

 

OP (KCTJ)

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