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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– A Caminhada no Interior de uma Catedral Gótica

                                                                                                                                                                                                             

Ao entrarmos numa Catedral gótica, entramos pela porta que dá acesso à nave principal, e por essa via, tanto podemos caminhar com os traços que marcam o nosso sacrifício, como podemos caminhar com satisfação, uma vez que a emoção com que iniciamos a nossa caminhada nesse espaço sagrado, só depende de como foi construída a nossa Catedral interior. Entremos, pois, no interior da Catedral imbuídos de fé e de esperança. Logo à entrada (nas poucas Catedrais góticas ainda existente), podemos encontrar o chamado “Labirinto de Salomão”, por ser o símbolo da Sabedoria, que no mais puro sentido alquímico, tem o mesmo significado que é atribuído ao mito grego de Teseu, o herói que entra num labirinto para combater o Minotauro. E, que após ter vencido o monstro metade homem, metade touro, consegue regressar, graças ao fio que sua esposa Ariadne (aranha) lhe dera. Porém, para o cristão, o labirinto de uma Catedral gótica assume um simbolismo mais consentâneo com a sua filosofia, o qual para ele passa a significar o caminho que une a Terra com o Céu. Assim, ao percorremos os seus labirínticos caminhos, procuramos chegar à nossa salvação eterna e, para que isso seja possível, simbolicamente temos que enfrentar a morte e a ressurreição, até chegarmos à Jerusalém celeste, ao Santo Graal.

 Na verdade, ao caminharmos neste labirinto, estamos simbolicamente a caminhar nos caminhos que iremos percorrer em toda a nossa vida. Pois, mais cedo, ou mais tarde, entraremos em contacto com o nosso monstro interior, isto é,  entraremos em contacto com as nossas imperfeições. E, quem consegue combater e vencer os seus próprios defeitos (o Minotauro) e possui o fio de Ariadne (o símbolo do conhecimento iniciático) consegue  ver a verdadeira Luz e encontrar o Santo Graal.

 Assim, vencido o labirinto, continuamos a caminhar ao longo da nave central, e  encontrar tanto à nossa direita, como à nossa esquerda, duas ou mais filas de compridos bancos de madeira, que simbolicamente são as muitas Moradas da Casa de Deus, dado que em cada assento, haverá sempre um lugar para quem o procure.

 Nessa caminhada em direcção ao trono da Divindade, estamos compenetrados, pelo que não nos distraímos, nem com a estatuária esguia que nos olha por cima, nem com as histórias sagradas que se projectam no chão sagrado. Seguimos sempre em frente, pois sabemos que encontramos o Altar ao fundo dessa comprida nave, no qual se consagra o pão e o vinho, símbolo da matéria e do espírito, e que por essa razão, é o portal da pureza e da perfeição, a partir do qual não existem mais paixões, nem mais mesquinhez humana. Comungando nesse altar, sabemos que purificamos e limpamos o nosso espírito, das impurezas, das imperfeições de carácter, e das culpas que ao longo da vida vamos formando. Contudo, será somente através do nosso puro e sincero arrependimento, que purificaremos o nosso Eu Interior, e com Este limpo e purificado, sabemos que somos eternos, dado que estamos imbuído da pura Perfeição e da  Pureza da Luz Sagrada.

 Assim, para alcançarmos essa mística Luz branca que vem do Oriente, temos que continuar a caminhar pela comprida nave da Catedral, rodear a fonte dos transeptos, e obrigatoriamente, voltar o nosso rosto para o Oriente, para a direcção onde nasce o Sol, para a direcção que foi o berço das grandes tradições espirituais. Pelo que ao sairmos do transepto das trevas, obrigatoriamente seguimos em direcção à Luz. E, nessa direcção, poucos passos adiante, sentimos logo a atmosfera que nos convida à introspecção e à reflexão.

 Após termos alcançado o altar dos sacrifícios, chegamos por fim ao local onde se situa o Coral Gregoriano, local onde cantam os Anjos e  todos os Seres Perfeitos e imaculados, que acolhem todos aqueles que abandonam a sua prisão de carne e ossos, para, finalmente, retornarem  ao seu verdadeiro Lar Eterno. E, deste local onde pairam os seres perfeitos e imaculados, por fim, avistamos o Altar Mor.

 Chegados ao local onde recebemos a luz que vem do Oriente, a direcção que simboliza a Luz de Deus, Aquele que foi O Grande Arquitecto de todo o Universo, embora lá esteja a representação do Mestre Perfeito que nos indicou o Seu caminho, mais consentâneo com os escritos gnósticos, que nos apresentam um Jesus mais humano e menos divino do que os evangelhos ditos canónicos. Imbuídos da mais pura Fé, sabemos que no coração deste palácio da Divindade, só terão lugar os que abandonaram todas as paixões e todas as misérias humanas, caso contrário, serão obrigados a percorrer o árduo caminho em direcção ao Ocidente, e sair da Paz Eterna, para a confusão do mundo profano, de aprendizagem e evolução.

 Uma das sete leis de Hermes diz-nos que o que está em baixo é igual ao que está em cima, o que também é válido para as Catedrais góticas, pois se os pináculos de uma Catedral gótica furam os Céus, as suas criptas perfuram e escondem-se nas entranhas da terra. Lá, que é o paradeiro das ossadas e dos espíritos vagabundos. E, que por estar sempre envolta no eterno manto do silêncio, da humidade e da escuridão, atraem sobre elas densos mistério, pelo que são poucos aqueles que se aventuram sem secretos medos, por aqueles escuros e húmidos labirintos. Nesses lúgubres lugares, podemos encontrar numerosas colunas, encimadas com atarracados capitéis, onde a elegância e a riqueza cedeu o lugar à solidez e à robustez. Na verdade nesta parte intima da Catedral gótica, domina o poder das trevas, que no seu escuro manto, abraça e esconde o asilo dos mortos e a necrópole dos ilustres. E, tal como nas catacumbas romanas, que foram na antiguidade o cemitério dos cristãos, neste lugar de mistério e de medos, também existe lajes de pedra, mausoléus de mármore e sepulcros em ruínas, que nos dão a conhecer fragmentos do passado, e que nos profetizam, que neste mundo nada somos, e tal como aqueles que antes de nós viveram e, ali repousam, um dia também ao pó regressaremos. E, porque esta mensagem é uma verdade intemporal, qualquer mortal receia entrar neste mundo de trevas e de fantasmas. E tanto mais que a panóplia de horrendas figuras que decoram as fachadas da Catedral gótica, parecem anunciar, que naqueles escuros labirintos existem cavernas onde vivem os ciclopes, ou quiçá, ainda pior, podem dar acesso ao portal do inferno.

 Na verdade, cada parede, cada coluna destes livros de pedra esculpida, contam ao visitante uma surpreendente odisseia humana, ao mesmo tempo que nos ensina qual é o Caminho Recto, que nos permite não nos desviarmos, nem para os bancos da esquerda, nem para os bancos da direita, a fim de podermos atingir a plenitude do Altar Mor, e de lá, jamais retornar, a menos que seja para auxiliar um nosso irmão, que ainda não tenha conseguido encontrar o seu caminho, e que por isso, vagueia perdido entre os bancos das naves laterais. Assim, ao prestarmos esse auxilio, passaremos a conhecer um dos significados dos dois cavaleiros sobre um único Cavalo. Que é sem dúvida, o voluntário que foi amparar o seu Irmão Menor de Armas, que se achava perdido entre as ilusões do mundo, e a hipnose provocada pela luxúria, cumprindo desse modo o seu juramento sagrado.

OP (KCTJ)     

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