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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– A Verdade na Mentira ou a Mentira na Verdade

(…) Então Pilatos regressou ao Pretório, chamou Jesus e disse-lhe: “És tu o rei dos Judeus?” Jesus respondeu: “ É por ti mesmo que o dizes ou foram outros que to disseram de mim?” Pilatos respondeu: “Será que eu sou judeu? Os da tua nação e os sumos-sacerdotes é que te puseram nas minhas mãos. Que fizeste? “Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente teria combatido para que eu não fosse entregue aos Judeus. Mas o meu reino não é daqui.” – “Então tu és rei” disse-lhe Pilatos. –“ Tu o dizes, sou rei”, respondeu Jesus, e só nasci e só vim ao mundo para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz.”

Pilatos Perguntou-lhe: “ O que é a Verdade?”

 

Novo Testamento, A Paixão segundo S. João, XVIII, XIX

 

 

 

O que é a Verdade? Haverá uma verdade única, intangível e absoluta? Será que existe uma força cósmica inteligente que conheça a verdade integral, que conheça o saber sem lacunas sobre toda e qualquer existência de Vida no Universo? Não sabemos… Embora, ao longo dos milénios muitas gerações de estudiosos, filósofos, místicos e religiosos se tenham debruçado sobre esta questão. E, como resultado do seu trabalho, apenas obtiveram mais antagonismo do que a harmonia, uma vez que este degenerou numa miríade de correntes de pensamento, donde não emerge uma visão clara da Verdade, nem tão pouco um vislumbre desta, e muito menos uma certeza inquestionável, dado que sobre a verdade encontramos diversas correntes de pensamento, e de entre elas, destaca-se:

  • A de não haver nenhuma verdade para além daquela que os nossos órgãos sensoriais podem directamente perceber, ou indirectamente, com o auxilio de instrumentos técnicos e laboratoriais.
  • A de existir uma verdade que tudo abrange, mas que não está ao alcance do ser humano, porque se encontra incapacitado para a descobrir, ou para a interpretar, ou até para a assimilar.
  • A de que cada qual tem a sua própria verdade, que por ser múltipla e variada, não existe uma única verdade.
  • A de crer numa verdade revelada por uma religião, que se considera única e legítima, e que por essa razão, despreza todas as outras verdades, por as considerar falsas, hipócritas, ou distorcidas.
  • A de que qualquer pessoa possui a verdade, desde que iniciada nas práticas secretas da agremiação a que pertence. Pois, somente através da Iniciação dessa agremiação, podem os neófitos atingir níveis cada vez mais elevados de consciência sobre a existência da verdade absoluta.

Para não me alongar na procura de todas estas verdades, abordo somente a Verdade revelada pela Bíblia, sobre a criação do Homem. Este sagrado livro revela-nos que os primeiros seres humanos da Terra caíram em tentação e em pecado. Eva deu ouvidos à mentira de Satanás, e como resultado, tanto ela, como o seu companheiro, foram expulsos do Éden, por Deus. Por conseguinte, desde esse mítico e longínquo tempo, nada mudou para o Homem, uma vez que continua a acreditar mais na mentira do que na Verdade que vem de Deus.

Todavia, esta revelação Bíblica levanta-nos uma pertinente questão sobre a Verdade integral da criação. No que devemos nós acreditar como sendo a Verdade absoluta e indiscutível para o surgimento do Homem à face da Terra? Devemos antes acreditar na história do príncipe que se transformou num sapo, ou no sapo que se transformou num príncipe. Por outras palavras, devemos acreditar na teoria criacionista, que defende que um Deus criou todas as coisas no Universo, ou devemos acreditar na teoria evolucionista, que diz que tudo nele surgiu por acaso? Para cada uma destas teorias, existem cientistas afamados, prontos a defenderem cada uma delas, o que nos deixa confusos, perplexos e muito baralhados. Pois, os cientistas criacionistas afirmam, que se a vida pudesse surgir do acaso, esse acaso poderia ser demonstrado através de experiências laboratoriais, contudo, até hoje nada foi possível provar. Enquanto que os cientistas evolucionistas, como Charles Darwin, defendem que a vida surgiu nos oceanos, e evoluiu ao longo do tempo através de sucessivas transformações e modificações nos seres vivos. E, que através deste sucessivo processo, deu origem na Terra a novas espécies de Vida, que sobreviveram graças à Selecção Natural.

Ora bem, como homem amante da ciência, sei que através da homologia das estruturas de dois, ou mais organismos diferentes, podemos determinar se estas derivam, ou não, de um grupo ancestral comum. Pelo que se tomarmos como exemplo a anatomia do braço do homem, verificamos que este, a pata do cavalo, a asa do morcego, e a nadadeira da baleia, são todas elas estruturas homológicas entre si, o que nos provam que tiveram a mesma origem embriológica. Assim, através deste simples exemplo anatómico, podemos concluir que as mutações genéticas, a selecção natural, as diferenças de ambiente, os movimentos migratórios, e até mesmo o isolamento, concorreram ao longo do tempo para alterar e modificar os genes das populações de animais. Pelo que ao admitirmos como sendo verdade aquela que os registos fósseis nos contam sobre o aparecimento e a evolução do Homem na Terra, estamos a concordar que este surgiu à face da Terra através da evolução das espécies, e comprovadamente, que de entre todas elas, foi aquela que teve maior sucesso, uma vez que é o animal de grandes dimensões mais abundante na Terra.

Em face desta conclusão, o Homem, tal como os outros animais, recebeu da Natureza os instintos da preservação da sua espécie. Porém, esta negou-lhe os meios físicos naturais para lutar pela sua Vida. Em compensação armou-o com o intelecto, que desde os seus primeiros tempos, utiliza sabiamente para enganar e ludibriar os seus adversários, de corpos mais fortes e velozes, e com presas pontiagudas e cortantes, mas desprovidos de malícia, garantindo deste modo, não só a sua sobrevivência, como a sua subida aos sucessivos patamares evolucionistas da sua espécie. Contudo, ao longo dos milénios, acabou por se distanciar das suas raízes primordiais, e com este distanciamento, acabou também por se esquecer das suas origens primárias e, por conseguinte, deixou de ouvir os apelos da Natureza. Pelo que sem o saber, hoje, continua aprisionado ao seu intelecto trapaceiro e astuto.

Todavia, por ter travado durante milénios, em terreno hostil, uma luta injusta e maliciosa com os demais animais, o Homem foi aperfeiçoando a sua trapaça intelectual, acabando por os vencer, um a um, até presentemente os ameaçar de completa extinção. Aliás, não deixa de ser muito interessante observarmos o quanto Freud estava certo ao dizer, que o ser humano dito “civilizado” apenas trocou de instrumentos, abandonando os paus e as pedras, para usar a linguagem como arma sagaz para manipular o seu semelhante, com o único fim de obter para si qualquer ganho prático e vantajoso. Com este passado de ardis e trapaças, como podemos nós esperar ouvir a Verdade deste ancestral mestre da mentira e do embuste? E, tanto mais que com as manhas milenarmente aprendidas, com facilidade e habilmente expressa coisa diferente do que percebe e que sente como realidade para se sentir realizado. E, tanto mais que este há muito que sabe, que o perigo de ser punido pelo seu acto trapaceiro é muito reduzido, uma vez que só será castigado em consideração aos fins e objectivos para que usou a falsa verdade, o que facilmente torneia e manobra. Por conseguinte, a verdade e a mentira por si só, nada significam de bem ou de mal. Aliás, este até considera que os indivíduos com inata dificuldade para proferirem a não verdade, socialmente são uns ingénuos e pouco habilidosos para o convívio social, ou, como modernamente hoje se diz: não têm “jogo de cintura”.

Todavia, se considerarmos todas as formas de não se dizer a verdade, que vai desde a mentira convencional de dizermos “Bom Dia”, sem que necessariamente o desejemos, passando pela mentira humanitária de consolar um doente terminal, ou da mentira carinhosa de achar que um determinado vestuário fica muito bem na pessoa amada, ou ainda o de fazer com que as crianças acreditem na existência do Pai Natal, ou até mesmo, o de mandar recado telefónico de que se está ausente, quando na realidade se está ao lado, ou até por razões económicas, não se dizer a verdade sobre o património, quando o prejudicado for o fisco, ou até mesmo a mentira por omissão, que também é uma forma de dissimular a verdade, verificamos que de harmonia com as  pressões que o sucesso na vida em sociedade exige, raramente o Homem diz a verdade. Claro, que para além deste tipo de inverdades, ainda há a falsa verdade como arma para a satisfação de interesses indirectos e vinganças, como seja por exemplo, a de alimentar falsos rumores e calúnias, com o único fim de diminuir, comprometer e destruir adversários.

Na verdade, a mentira é um recurso de uso fácil, que não necessita de grande esforço, nem de grandes penúrias, ainda que haja o permanente risco de se ser descoberto, como foi referido, esta nunca traz consequências de maior ao seu autor. Portanto, nada que um teatral e eloquente discurso não remedeie e desfaça o pequeno acidente. Aliás, na política é costumeiro não se dizer a verdade. E, há muito tempo que este uso é autorizado e aceite pelos cidadãos, pois nas reeleições de candidatos mentirosos, não é costume os cidadãos penalizarem quem tenha feito falsas promessas. Platão comparou a aplicação da mentira na política, ao uso que o médico faz da verdade e do veneno para fins terapêuticos. Portanto, em política, a mentira tanto é normal, como até está institucionalizada, apenas se lhe atribui um outro nome, talvez para não ferir algumas susceptibilidades, que é o de “linguagem diplomática”, a qual não deixa de ser um idioma hipócrita, uma vez que é o idioma com que habitualmente os chefes de Estado falam uma coisa querendo dizer outra.

Por outro lado, para Freud, o lobo e o cordeiro andam sempre juntos, uma vez que o inconsciente que carrega o desejo, não conhece caminhos morais ou amorais que impeçam a concretização do pensamento na acção. É como se Deus não existisse sem o Diabo, e ambos estivessem nas duas faces de uma mesma moeda. Pelo que no mesmo seguimento deste raciocínio, a mentira e a verdade constituem um par dialéctico sempre presente em qualquer alocução do Homem. E, como a mentira se refugia na intencionalidade, esta pode ser sempre desculpada.

Claro, que há mentiras e mentiras! Umas podem ser classificadas como singelas e acanhadas, como é o caso de uma mentira tosca e pueril, por exemplo da pessoa que é casada, mas afirma o contrário, com o propósito de facilitar uma conquista amorosa, enquanto que outras são de proporções inimagináveis, por exemplo, o falso relatório sobre a existência de um arsenal de armas de destruição em massa no Iraque, para justificar uma guerra igualmente de destruição em massa. Através da extensão destes dois exemplos, podemos concluir, que na vida humana de hoje, nada permanece livre da ausência da verdade, tanto nos regimes políticos, nas profissões, nas religiões, nas ciências, nas artes e em todas as actividades e relacionamentos humanos. Vivemos sob o império da mentira e da falsidade. Mentem entre si pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados, governantes e governados. A mentira é o esteio da vida moderna, a base dos relacionamentos familiares, profissionais e públicos. É a primeira lição que uma criança aprende, ainda no berço, e depois, a gatinhar, aperfeiçoa-a, ao mesmo tempo que aprende a abstrair-se da realidade através dos devaneios, das fantasias, das lendas e das fábulas. E, muito mais tarde, recordando a sua infância, o Homem passa a ter uma propensão invencível para se deixar enganar, uma vez que fica como que enfeitiçado de felicidade, quando lhe narram lendas e contos épicos, tidos como verdadeiros. A própria literatura, o teatro e o cinema alimenta neste esse seu desenfreado desejo de engano e de mentira. Pelo que, hoje, muito dificilmente este consegue distinguir o que é verdade e o que é mentira. E, deste modo, a inverdade passou a estar sempre presente nas relações dos Homens. Aliás, o que se poderia esperar dos amantes do Pinóquio, e daqueles que têm a mentira como sustentáculo ancestral da sua sobrevivência?

OP

 

 

 

 

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