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Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo da Gloriam

– A Tolerância e a Compreensão

“A verdadeira tolerância é muitas vezes penosa: permitir que se exprimam e se expandam ideias que nos parecem perniciosas; ver o adversário prosseguir no seu caminho sem encontrar obstáculos, é difícil e desencorajante. A indiferença não passa de uma falsa tolerância e é característica de épocas destituídas quer de uma filosofia clara de vida quer de bases sólidas na sua tradição moral.”

Sir Richard Winn Livingstone, Reino Unido,

A Tolerância na Teoria e na Prática, 1954

 

“A paz do mundo tal como a paz da comunidade não exige que cada homem ame o seu próximo – apenas exige que os homens vivam em conjunto numa tolerância mútua e que aceitem submeter os seus diferendos a um regulamento justo e pacífico.”

 John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos da América,

10 de Junho de 1963

 

“Durante a minha vida nunca pude suportar a palavra “tolerância”, tolerar os outros, suportá-los mesmo, é primeiro que tudo jactância e depois este termo tem uma nuance de fraqueza, tem qualquer coisa de mole.”

 Theodor Heuss, República Federal da Alemanha,

Discurso, 1959

 

“A tolerância sempre foi necessária à felicidade e à prosperidade da raça humana. Hoje ela é necessária à sua sobrevivência”.

 Sir Richard Winn Livinstone, Reino Unido,

Tolerância na Teoria e na Prática, 1954

 

 

“O Rei [Filipe II de Espanha] está errado se acredita que o povo deste país vai tolerar indefinidamente os éditos sangrentos contra os heréticos. Embora eu seja totalmente dedicado à religião católica romana, não posso aprovar que os monarcas se arroguem um direito de controlo sobre a consciência dos seus súbitos e os privem de liberdade religiosa”.

 Guilherme de Nassau, dito O Taciturno, Holanda,

Discurso pronunciado no Conselho de Estado, 1564

 

“A natureza diz a todos os homens: fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na Terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instrui-vos e tolerai-vos”

 Voltaire, tratado sobre a tolerância

 

“Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro, e um ignorante lhe responda que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da tolerância e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco…”

 

José Prat

Pelas máximas referenciadas, podemos retirar que o seu conceito é muito vasto. Pelo que recorramos aos dicionários das línguas latinas para aprofundarmos o seu significado e verificamos que todos eles fazem sobressair a ideologia da cultura europeia, a qual tem como projecto a universalidade e a homogeneidade da sociedade, pela dominação das outras culturas. Por exemplo, no Dicionário da Porto-Editora, “tolerância” está definida como sendo: a “acção de admitir sem reacção defensiva; atitude que consiste em deixar aos outros a liberdade de exprimirem opiniões que julgamos falsas e de viverem em conformidade com tais opiniões; condescendência; indulgência; paciência, aptidão do organismo para suportar certos medicamentos”, ou seja, nesta acepção, “tolerância” pressupõe a existência de uma relação humana entre desiguais, em que o superior faz concessões ao inferior. Mas, para descortinarmos melhor o seu conceito, peguemos na última definição que o referido dicionário faz sobre “tolerância”. Na medicina tolerar significa a aptidão dum organismo para suportar a acção de um medicamento, ou de um agente químico, ou físico, ou seja: é a capacidade para suportar, ou para aguentar. Pois pressupõe que o doente suporta um tratamento indesejado quando aquele seja extremamente necessário para a sua saúde, uma vez que aceita passar por uma situação desagradável e incómoda, se esse for o único meio para atingir esse bem maior. Pelo que desta breve reflexão podemos retirar, que os doentes toleram de diferentes modos os microrganismos, uma vez que alguns adoecem e morrem, e a outros nada ocorre. Pelo que desta constatação, retiramos que o significado de “tolerância” corresponde ao limite da aceitabilidade. Por conseguinte, se transpormos este conceito no foro social, corresponderá ao intervalo da aceitabilidade da nossa individualidade. E, se transpormos aos materiais e a outros inertes, corresponderá ao limite da aceitabilidade entre o que está definido nas características exactas daqueles e ao que é esperado.

Assim, tal como nem todos os organismos vivos suportam os medicamentos, e não se toleram desvios ao que está estabelecido nas normas para os materiais e outros afins, também socialmente não se aceitam atentados aos nossos valores e aos nossos princípios. Razão, porque os pensamentos dos notáveis sobre a “tolerância” são aparentemente incorretos.

 

Na verdade, é muito frequente apelarmos à “tolerância” por tudo e por nada, talvez porque seja politicamente correcto anunciá-la, uma vez que tal apelo fica bem em qualquer discurso, pois soa a moderno e evita muitas discussões e aborrecimentos. No entanto, porque algumas personalidades históricas e para nós de referência, defenderam pontos de vista politicamente não muito correctos, devemos reflectir nas razões porque o fizeram. E, para isso, comecemos por nos interrogar: ao sermos tolerantes, estamos a reflectir um sinal civilizacional positivo? Em consciência, tenho as minhas dúvidas, uma vez que ao sermos tolerantes, para além de estarmos a pactuar com o comodismo e com a indiferença, estamos também a fechar os olhos à ignorância e à hipocrisia. É o eterno adiar das questões, sem nos comprometermos com resoluções sempre embaraçosas e impertinentes. Aliás, se reflectirmos com a profundidade e a sinceridade que o assunto merece, verificamos que a “tolerância” não pode ser considerada um ideal civilizacional, porque não é o Amor. Antes pelo contrário, este ambíguo comportamento situa-se a meio caminho entre a Justiça e o Amor, uma vez que se exige o respeito daquele de quem não se gosta, e muitas vezes até se detesta e odeia. Portanto, a “tolerância” é uma meia virtude, que tem a mais valia de impor a não-violência sobre o próximo, que no entanto se aceita sob reserva, ou apenas se ignora que existe.

Na verdade, ao analisarmos o significado de “tolerância” no ponto de vista de uma relação emocional, podemos afirmar que a tolerância cria uma relação de aceitação perversa entre o tolerante e o tolerado, uma vez que quando se tolera alguém, não temos a intenção de confraternizar com esse alguém, nem tão pouco temos a intenção de nos reconciliar com ele, e muito menos de o amar, uma vez que só toleramos o que não compreendemos, ou simplesmente, o que reprovamos. Pelo que ao tolerarmos, estamos somente a contribuir para que haja um permanente conflito entre a liberdade e a verdade. É como se estivéssemos permanentemente entre a guerra e a paz, ou, entre o ódio e o amor.

Continuando na senda reflectiva das razões que levaram personagens históricas e da nossa referência a tecerem definições à “tolerância” politicamente incómodas, verificamos que as causas poderiam estar relacionadas com algumas realidades que podem ser observadas na sociedade humana moderna, uma vez que verificamos que nestas sociedades, em nome do crescimento económico e do bem-estar social, as autoridades passaram a actuar em nome dos cidadãos, que por sua vez, passaram a tolerar os seus governos, os quais passaram a tolerar as suas oposições nos limites fixados pelas autoridades, o que atesta a sua volubilidade, dado que dependem muito da autoridade que for instituída. Assim, o modelo de sociedade baseado na “tolerância”, está assente no pressuposto que a maioria mais violenta detenha o Poder, o Direito, ao mesmo tempo que dita os limites da tolerância, o que nos leva a parafrasear Platão: “a justiça é o interesse dos mais fortes”. E, sendo assim, o limite da tolerância é determinado pelo interesse do mais forte.

Através desta breve reflexão, retiramos, que ao sermos tolerantes a ideias obtusas e autocráticas, podemos estar a ser absurdos e incongruentes com os nossos ideais, quando deveríamos ser verdadeiros com os nossos princípios e com os nossos valores. E tanto mais, que a “tolerância” a ideias obtusas e disparatadas, só pode ser comparável com a passividade que um pai possa demonstrar ao não corrigir de imediato um disparate do seu filho, em idade escolar. Pois, a ausência de uma pronta correcção, catalogá-lo-ia como não sendo um bom pai, nem tão pouco um bom educador; ora vejamos um exemplo: se o filho um dia abordasse o pai, e lhe dissesse com a maior das suas convicções, que a Terra era quadrada, e se aquele ao abrigo da “tolerância” e da permissividade, não o corrigisse de imediato, estaria a ser um bom pai? Claro que não! Uma vez que estava a ser permissivo com a sua manifesta ignorância. Ora, então porque razão devemos  ser tolerantes a ideias absurdas, disparatadas e contrárias aos nossos princípios e valores? Porque não devemos ser verdadeiros connosco próprios?

Claro, que existem algumas situações na vida, que apesar de nos parecerem absurdas e disparatadas, levam-nos a ignorá-las e a sermos passíveis para com elas, somente porque estamos convictos que a nossa passividade contribui para um bem comum, ou para uma sociedade mais harmoniosa, valores que são mais altos do que a própria verdade.

Porém, dada a complexidade da nossa individualidade, o nosso limite para aceitarmos estes “grandes sapos” é muito variável. Pois, podemos tolerar algo pela manhã, mas se o mesmo assunto nos for apresentado à tarde, pode passar dos limites da nossa aceitação, e como resultado, explodimos de indignação e de repulsa. Aliás, como seres concebidos à imagem e semelhança de Deus, estamos somente a seguir o seu exemplo, pois também Ele mostrou ter limites para a sua tolerância e aceitação, dado que é do conhecimento geral que no Paraíso Deus estava tolerante a qualquer acto dos humanos. Porém, só tinha imposto a estes uma proibição, o de não desejarem o fruto proibido, que seria portanto o limite da Sua tolerância, e como aqueles desrespeitaram a norma que lhes fora imposta, Deus castigou de imediato o ser humano por tal pecado, com a sua expulsão do Éden, e desde então a morte passou a governar a vida da humanidade. Ou seja, uma das partes, aquela que tinha maior poder decidiu o que era possível tolerar!

Assim, por consequência da complexidade da individualidade do Homem, interroguemo-nos mais uma vez: o que leva duas, ou mais pessoas a entrarem em discórdia? A resposta parece ser simples, uma vez que a nossa intuição endereça-a para a invasão do direito alheio; para o ultrapassar do limite da “tolerância”; para a incapacidade de compreensão mútua, ou própria; para a falta de empatia; para a nossa própria natureza, ou para o nosso próprio temperamento e imperfeição. Pelo que para ultrapassarmos estas imperfeições e condicionalismos, temos que ter Sabedoria para vivermos e comunicarmos com os outros.

Sendo a cultura popular uma grande escola da vida, recordemos alguns dos seus ensinamentos: um dos provérbios populares diz-nos que “errar é humano, perdoar é divino”. Portanto, este provérbio ensina-nos que o perdão absoluto é divino. No entanto, apesar da sua Divindade, podemos ter o ideal de perdoar, mas nem sempre o conseguimos, e para tal incapacidade, outro provérbio faz referência a esta nossa imperfeição, e diz-nos que “Perdoar, eu perdoo; mas esquecer, não esqueço…”. Na verdade, toda a dificuldade em perdoar manifesta-se porque abre uma porta honrosa para o agressor, o qual não precisa gastar tempo a se justificar, nem tão pouco tem necessidade em se humilhar em público. E tanto mais que existem muitos Homens capazes de se desculparem e de justificarem os seus actos, mas que ficariam envergonhados se tivessem que manifestar desculpas ou justificações em voz alta aos outros.

Por outro lado, tolerância e compreensão podem incorrectamente confundir-se, o que não deixa de ser um disparate, uma vez que a compreensão não pode ser confundida nem com a “tolerância”, nem tão pouco com a cumplicidade no erro, uma vez que a “tolerância” está associada à indiferença, e a cumplicidade está associada ao desejo de ser solidário com a pessoa que errou e que está disposta a ajudar para reverter a situação, na base de que tal “como o bom vinho, o Homem melhora com o tempo”. Aliás, assim nos diz também o provérbio: “O tempo é o melhor remédio”.

Em suma, numa sociedade onde tudo é socialmente aceite, acaba por tudo ser tolerado. E, nestas condições, as pessoas perdem a noção do que está certo ou do que está errado. A inteligência deixa de discernir, e a vontade fica fraca para agir. As pessoas passam a prezar o que lhes é caro, e sendo o dinheiro caro a todos, tornam-se materialistas ao mesmo tempo que se tornam pobres de ideais e de valores, o que justifica a existência de um outro provérbio: “quem não vive como pensa, acaba a pensar como vive”.

Contudo, só quem se conhece a si mesmo, e tem uma visão culta e moderna da natureza humana, pode ser tolerante na acepção do seu melhor conceito. E, para bem do Homem, é desejável que a tolerância permaneça nos seus corações. Pois, quando as nossas razões são empoladas, quando os nossos maus humores são levados muito a sério, quando não se reconhece a relatividade das nossas ideias, quando nos julgamos superiores aos outros, ou com uma cultura acima dos demais, ou com um Deus maior, ou até com outros predicados que julgamos ser superiores aos outros, tornamo-nos intolerantes, e a intolerância torna-se a causa geradora de muitos conflitos e de muitas guerras.

Todavia, não devemos reprovar, nem devemos ignorar que a intolerância a ideias pode e deve servir de catalisador ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento do Homem, uma vez que a intolerância não tem nada a ver com falta de respeito, com a arrogância ou com o egoísmo. Tem apenas a ver com o facto de sermos únicos, diferentes e com ideias próprias. E, tal como o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença, o oposto da tolerância não é a intolerância, mas sim o respeito às diferenças.

Por outro lado, sendo o Homem na imensidão do tempo e do espaço deus em potência, as suas diferenças culturais, étnicas ou raciais, tornam-se insignificantes diante da sua identidade como ser infinito e ao mesmo tempo efémero, logo não há razão para que seja intolerante a estas diferenças, apenas há razões para ser intolerante a ideias perniciosas, autocráticas e obscurantistas.

OP

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